Entropia Terminal

A máxima de que o trabalho dignifica o homem é, sem sombra de dúvida, a fraude de marketing mais bem-sucedida da história, superando até mesmo a audácia de quem decidiu engarrafar água da torneira e vender como elixir da juventude. Enchemos a boca para falar de “propósito”, “legado” e “carreira”, agindo como se estivéssemos esculpindo a história em mármore, quando a realidade nua e crua é que passamos a vida movendo elétrons de uma planilha para outra, queimando nossa preciosa biologia para gerar relatórios que ninguém lerá. A estrutura corporativa moderna é uma tentativa patética e desesperada de impor ordem onde a física fundamental do universo exige o caos.

Na última vez que nos reunimos para destilar o veneno da realidade, discutimos como a gestão humana é o tecido canceroso da ineficiência. Mas o buraco é infinitamente mais embaixo. O que os gurus do LinkedIn chamam de “geração de valor” é, termodinamicamente falando, um crime. Trabalhar é lutar contra a Segunda Lei da Termodinâmica usando um palito de dente; é tentar reduzir a entropia local da sua mesa de escritório ao custo de um aumento obsceno da desordem global. Estamos tentando varrer o convés enquanto o Titanic já se partiu ao meio e a orquestra toca funk.

O Brejo

Do ponto de vista puramente físico, a vida é um mecanismo parasitário que sequestra energia externa para manter uma estrutura coesa. Historicamente, o suor humano era a moeda de troca para essa negentropia: empilhar pedras, colher grãos. Mas agora, habitamos a era da automação fria e absoluta. As máquinas de silício processam em nanossegundos o que o nosso cérebro gelatinoso e cheio de vieses levaria décadas para compreender.

O que resta para o primata de terno? O “toque humano”? Não me faça rir. O tal toque humano é apenas um ruído estatístico, uma falha de arredondamento que romantizamos porque a alternativa — admitir nossa obsolescência — é dolorosa demais. Quando um sistema automatizado orquestra a logística global com precisão cirúrgica, a supervisão humana é apenas um desperdício de glicose e oxigênio. Somos baterias de baixa densidade, vazando ácido, tentando alimentar um reator de fusão.

É a mesma sensação de lidar com aquele smartphone de última geração que, após dezoito meses, decide que a bateria não aguenta mais meio dia de uso. Você o conecta à tomada, implora por energia, mas a química interna já se degenerou em uma pasta inútil. Nós somos essa pasta.

Que nojo.

Desperdício

A automação não chegou para nos libertar do fardo; ela chegou para esfregar na nossa cara a nossa ineficiência biológica. Se um processador pode desenhar a arquitetura de um circuito ou redigir um contrato blindado sem precisar de pausas para o café, férias remuneradas ou crises de meia-idade, o valor do esforço humano migra para o terreno do puramente decorativo. Estamos vivendo a “gourmetização” do sofrimento inútil.

Observe o fetiche contemporâneo pelo “home office” perfeito. É fascinante — e ligeiramente repulsivo — ver como indivíduos endividados gastam o equivalente a um transplante de rim em uma cadeira ergonômica de design, sob o pretexto alucinógeno de “otimizar a postura para a alta performance”. No fundo, é apenas um trono acolchoado de onde assistem à própria irrelevância funcional em resolução 4K. É como instalar um aerofólio de fibra de carbono em um carrinho de supermercado com a roda quebrada.

A informação, quando flui através do silício, busca o equilíbrio térmico com uma voracidade que nossa carne não consegue acompanhar. O “trabalho” tornou-se um espasmo póstumo, uma contração muscular em um corpo social que já teve a morte cerebral decretada pela eficiência das máquinas.

Dá vontade de vomitar.

Decomposição

A verdade intragável, que nenhum CEO de startup vai admitir enquanto bebe seu suco verde prensado a frio, é que a consciência humana é um erro de cálculo na equação da produtividade. A neurociência já nos mostrou que nossas decisões são tomadas por impulsos eletroquímicos milissegundos antes de termos a ilusão de que “escolhemos” algo. Somos passageiros vendados em um veículo guiado por algoritmos que nem sequer compreendemos.

A “criação de valor” no século XXI é um teatro de sombras macabro. Mantemos as luzes dos escritórios acesas e os servidores zumbindo para sustentar a fantasia coletiva de que somos necessários. Termodinamicamente, somos apenas radiadores de carne, convertendo sanduíches processados em calor, ansiedade e dívidas.

É exatamente como comer uma coxinha de rodoviária às três da manhã: você sabe que o óleo é velho, que o recheio é de origem duvidosa e que o resultado final será uma azia vulcânica capaz de derreter o asfalto. Mas você come mesmo assim, porque o vazio no estômago — ou na alma — exige ser preenchido, não importa o quão tóxico seja o material.

No fim das contas, a vitória das máquinas não marca o fim do trabalho, mas o fim da desculpa de que o trabalho nos define. Quando a lógica perfeita assume o comando, resta-nos o ilógico, o absurdo, o supérfluo. E talvez não exista nada mais tragicamente humano do que gastar a herança dos filhos em um relógio mecânico complexo que atrasa dois segundos por dia, apenas para sentir a ilusão tátil de que ainda temos algum controle sobre o tempo que nos devora.

Lixo absoluto.

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