Termodinâmica Salarial

Beber esta cerveja barata, que tem o gosto metálico de moedas enferrujadas dissolvidas em água morna, numa segunda-feira à tarde, não é um ato de "rebeldia termodinâmica" como eu costumava dizer aos meus alunos antes de ser gentilmente convidado a me retirar da academia. Não se enganem. Isso aqui é apenas a suspensão temporária da fome, a postergação química do inevitável colapso nervoso que nos aguarda no momento em que o cartão corporativo for recusado. Enquanto o mundo lá fora, povoado por Faria Limers com coletes de nylon que custam mais que a minha dignidade, se esgoela falando em "propósito", "missão" e "valores compartilhados", nós, que já vimos o suficiente para saber que o RH é apenas o departamento de gestão de cinzas e sorrisos falsos, entendemos a piada cósmica.

Que porcaria.

A verdade nua, crua e gordurosa é que o trabalho não passa de uma tentativa desesperada e biologicamente custosa de gerar negentropia — ou entropia negativa, para os poucos que não dormiram nas aulas de física básica — em um sistema que, por natureza, deseja ardentemente desmoronar no caos absoluto. O que chamamos de "organização" é, na verdade, um sistema aberto perigosamente fora do equilíbrio, sustentado apenas pela queima constante de ATP e sanidade mental. Imagine a sua empresa não como uma "família", mas como aquele tupperware de lasanha esquecido no fundo da geladeira da copa por três semanas. No início, havia estrutura, camadas, propósito culinário. Agora? Há uma biosfera autônoma de fungos burocráticos e um cheiro adocicado de decomposição processual. Você, caro assalariado, é a eletricidade que tenta manter a geladeira ligada, lutando contra a Segunda Lei da Termodinâmica que dita que aquela lasanha vai virar uma pasta homogênea e tóxica. O esforço humano é o combustível que tenta manter a estrutura ordenada, impedindo que o escritório vire uma poça de café frio e post-its com recados passivo-agressivos. Mas a entropia, meus caros, sempre cobra os juros compostos. O tal "valor público" que tanto defendem nos relatórios anuais de sustentabilidade, impressos em papel couchê brilhante que ninguém lê, não passa da energia dissipada pelo sistema para não explodir. É o calor residual, o fedor de ozônio da impressora e o suor frio na sua testa depois de uma reunião que poderia ter sido um e-mail, mas que virou um calvário de três horas.

Que inferno.

Ilya Prigogine, se estivesse vivo e condenado a trabalhar num coworking com "puffes descolados" e chopp artesanal na torneira, riria da nossa cara enquanto preenchia planilhas de horas. Ele nos ensinou sobre as estruturas dissipativas: sistemas que precisam de um fluxo violento e constante de energia para manter sua forma e não se desintegrar em poeira estelar. O problema é que o gestor médio trata o trabalho como se fosse um monobloco de mármore eterno, quando na verdade a estrutura corporativa é mais parecida com uma daquelas coxinhas gourmetizadas de trinta reais — uma massa instável que custa dez vezes o que vale, promete uma experiência transcendental, mas que, em cinco minutos, sobra apenas a gordura saturada colando no céu da boca e uma azia que vai exigir o resto do seu vale-refeição em antiácidos. A tal "utilidade social" de uma empresa é, matematicamente falando, o subproduto excremental da sua luta contra a desintegração. Para que uma estrutura organizacional não se torne ruína, ela precisa exportar desordem para o ambiente imediato. É por isso que quanto mais "organizada" e "lean" é uma corporação, mais caótica, suja e desestruturada é a vida privada de quem está nela. O seu burnout não é fraqueza; é apenas a entropia que a empresa não conseguiu processar e vomitou diretamente no seu sistema nervoso central.

Ninguém merece.

Nessa busca frenética e patética por ordem, as pessoas compram ilusões de controle embaladas em plástico bolha. Veja, por exemplo, o sujeito que, sentindo as vértebras lombares se fundirem numa massa óssea única devido à tensão, gasta o equivalente ao PIB de um pequeno município numa cadeira de escritório ergonômica com ajustes milimétricos e suporte lombar dinâmico. É de um sadismo refinado. Ele acredita piamente que, ao ajustar o ângulo do seu assento em exatos 15 graus e travar o encosto de cabeça, está otimizando o seu "output criativo". Na realidade, ele está apenas comprando um sarcófago ortopédico extremamente confortável para passar as próximas dez horas dissipando sua energia vital em troca de um salário que será devidamente convertido em boletos de cartão de crédito e sessões de terapia comportamental. A cadeira não salva a sua coluna; ela apenas torna a sua paralisia voluntária mais esteticamente agradável para o layout do escritório open space.

A "excelência" é o maior mito teológico da nossa era secular. O que os coaches chamam de excelência é apenas um estado momentâneo de baixa entropia, uma flutuação estatística improvável que exige um esforço tão absurdo que se torna economicamente e fisicamente insustentável a longo prazo. É como tentar manter um castelo de cartas de pé em cima de um ventilador industrial ligado no máximo. Você pode até conseguir por alguns segundos milagrosos, gerando gráficos bonitos para o PowerPoint da diretoria, mas a que custo? A física não perdoa a soberba de quem acha que o "capital humano" é uma fonte infinita de ordem. Somos radiadores de estresse, convertendo café ruim e prazos impossíveis em calor, gastrite e desespero silencioso.

Quero meu café.

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