Sentem-se. E, por favor, parem de encarar o copo com essa expressão de análise sensorial. Essa cachaça de cinco reais, com seu teor de metanol questionável, possui uma integridade molecular muito superior à ‘missão e valores’ que o RH tentou empurrar garganta abaixo de vocês hoje cedo. Pelo menos o álcool é honesto: ele promete dor de cabeça e entrega dor de cabeça. A vida corporativa promete propósito e entrega apenas gastrite.
Falemos, já que vocês insistem em prolongar o expediente, sobre o fetiche moderno da ‘gestão participativa’ e a alucinação coletiva chamada ‘consenso’. No mundo dos que usam sapatênis e falam anglicismos desnecessários, fingimos que reunir dez pessoas numa sala sem janelas para decidir a cor de um botão é um exercício de democracia ateniense. Na realidade, o que vocês chamam de esfera pública ou colaboração é, fisicamente, o equivalente a estar preso num vagão de metrô lotado na Sé às seis da tarde: uma troca involuntária de suor, perdigotos e desesperança, onde a única coisa compartilhada é o desejo de estar em qualquer outro lugar.
Se tivessem a decência de despir essa palhaçada da sua roupagem sociológica, veriam que o que resta é uma perversão da Geometria da Informação. Imaginem, se seus cérebros exaustos permitirem, que cada opinião medíocre lançada naquela sala de reuniões é uma distribuição de probabilidade em uma variedade estatística. O tal ‘consenso’ não é uma epifania espiritual; é simplesmente a busca desesperada por um ponto nesta variedade que minimize a divergência de Kullback-Leibler entre os delírios de cada participante. Estamos todos navegando em uma variedade Riemanniana, tateando no escuro, onde a curvatura do espaço é definida pela densidade de egos inflados presente no recinto.
O problema é a métrica. Quando aquele diretor — o sujeito que ostenta um relógio suíço de mecanismo exposto, uma monstruosidade de engrenagens inúteis que custa o preço de um carro popular apenas para dizer que o tempo dele é mais valioso que o seu — abre a boca, ele deforma a geometria da sala. Ele cria uma singularidade gravitacional. A ‘vontade do time’ colapsa. O que ocorre não é um transporte paralelo de ideias ao longo de uma geodésica racional; é um atropelamento estatístico. A Matriz de Informação de Fisher, que deveria medir quanto conhecimento extraímos dos dados, zera. O sistema se torna degenerado. Vocês não estão trocando informação; estão apenas adicionando ruído térmico ao ambiente até que alguém ceda por exaustão.
E não me venham com a falácia da ‘empatia’. A neurociência fria nos diz que o que vocês chamam de conexão humana nessas reuniões é apenas o acoplamento de osciladores neuronais em frequências baixas. É um ajuste de fase, tão mecânico quanto o tique-taque de um metrônomo quebrado. Tentar ‘alinhar expectativas’ com o departamento financeiro é um problema de otimização convexa onde a função de custo é mal definida e cheia de mínimos locais. É como tentar organizar um churrasco de condomínio onde um vizinho é crudívoro, o outro só come carne maturada a ouro e o terceiro quer economizar comprando salsicha de jornal. O ‘bem comum’ morre na primeira iteração do algoritmo. O resultado é sempre uma solução subótima: uma carne queimada que ninguém queria, mastigada com ódio.
No final, o que sobra? Sobra vocês, sentados nessas cadeiras ergonômicas de design futurista que custam uma fortuna e prometem salvar suas lombares, mas que, na prática, só servem para mantê-los na posição ideal para serem explorados enquanto desenvolvem hemorroidas e lesões por esforço repetitivo. A postura está correta, a coluna está alinhada, mas a alma foi drenada pelo ralo da conformidade.
A busca pelo consenso é uma forma de entropia assistida. Vocês acham que a diversidade de opiniões aumenta a precisão da decisão, mas, geometricamente, se os vetores de opinião são ortogonais, o volume de informação útil tende a zero. É o ruído branco da burocracia. O universo não quer que vocês concordem; a termodinâmica apenas exige que vocês gastem energia o suficiente para que a morte térmica chegue um microssegundo mais rápido. E, a julgar pelas olheiras de vocês, o trabalho está sendo bem feito.
A garrafa secou. A aula acabou. Sumam daqui.
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