Entropia Gourmet

Como vínhamos discutindo sobre a patética tentativa humana de organizar o fluxo de caixa como se fosse uma partitura de Bach, caímos inevitavelmente no abismo da gestão de pessoas. É fascinante, de um modo mórbido, como as corporações modernas tentam vender a "missão, visão e valores" como se fossem mandamentos divinos talhados em pedra, quando, na verdade, não passam de um esforço desesperado e suado para retardar a morte térmica do sistema. Falemos de termodinâmica, ou melhor, daquela desculpa esfarrapada e plastificada que chamamos de "cultura organizacional".

Caos e o Preço da Coxinha

Toda empresa é, por definição, uma estrutura dissipativa. Para quem faltou às aulas de física para beber cachaça barata na esquina da faculdade, eu refresco a memória: Ilya Prigogine nos ensinou que sistemas abertos longe do equilíbrio podem criar ordem a partir do caos, desde que consumam energia e a dissipem violentamente para o ambiente. No mundo "gourmetizado" dos negócios, essa energia é o seu tempo de vida, a sua vitalidade biológica, e a dissipação é aquele relatório de KPI colorido que absolutamente ninguém lê.

É comparável a pagar vinte reais por uma coxinha de "frango defumado com cream cheese" num aeroporto estéril: o valor não reside no sabor, que é medíocre, mas no custo obsceno de manter aquela estrutura absurda funcionando enquanto você é extorquido sorrindo. A tal "função social da empresa" é a maior falácia do século, um conto de fadas para acionistas dormirem tranquilos sem Rivotril. A organização não serve ao público; ela serve à manutenção da sua própria baixa entropia, lutando contra o fato inegável de que, sem o chicote invisível do capital, tudo voltaria a ser o que é por natureza: uma bagunça completa.

O funcionário, esse pobre diabo que ainda acredita no "propósito", entra no escritório às nove da manhã como um sistema altamente ordenado e sai, às dezoito horas, como uma bateria de celular chinês falsificado: inchada, superaquecida e com 2% de carga. O que o RH chama de "engajamento" nada mais é do que a tentativa neuroquímica de ignorar que estamos apenas transformando café requentado e sanduíche de posto em apresentações de PowerPoint inúteis que morrerão num servidor esquecido. É um teatro de sombras onde o diretor finge que a empresa é uma família e o estagiário finge que não quer incendiar o almoxarifado só para ver algo real acontecer.

Calor, Suor e Mentiras

O problema central é que o trabalho humano é inerentemente entrópico. O cérebro, essa massa cinzenta superestimada que insiste em ter sentimentos, consome cerca de 20 watts para produzir, na maioria das vezes, ideias que poderiam ser substituídas por um gerador aleatório de frases de efeito ou por um coach quântico vibrando na frequência do fracasso. Quando um gestor fala em "sinergia", ele está, na verdade, tentando violar a Segunda Lei da Termodinâmica. Ele quer que dois mais dois sejam cinco, ignorando convenientemente que o calor perdido na fricção dos egos, nas fofocas de corredor e na burocracia desnecessária sempre torna o resultado final menor que quatro.

É a mesma sensação física de pegar um transporte público lotado às seis da tarde num verão tropical: um sistema tentando desesperadamente mover massa humana enquanto todos os envolvidos emanam um calor de ódio e exaustão que não produz nada além de irritação cutânea e desejo de extinção.

Para mitigar esse colapso físico iminente, o mercado inventou paliativos absurdamente caros. Vejam o exemplo daquelas cadeiras que custam o preço de um carro popular usado, como certas aberrações de design que prometem alinhar sua coluna enquanto você é moído pela moenda corporativa. O sujeito gasta uma fortuna num pedaço de plástico e tela de alta tecnologia só para que sua lombar não se transforme em pó antes do próximo fechamento trimestral. É a estética da produtividade mascarando a falência biológica. É o mesmo que colocar um aerofólio de fibra de carbono num Fusca 74 caindo aos pedaços: a aerodinâmica melhora no papel, mas o motor continua sendo um sopro de agonia e óleo queimado.

O Vazio Absoluto

Se olharmos através da geometria da miséria cotidiana, a organização é apenas um conjunto de pontos tentando minimizar a distância entre a mentira do marketing e a mediocridade do produto final. A "ética" e a "transparência" são apenas variáveis de ajuste matemático para evitar que o sistema colapse sob o peso da sua própria hipocrisia. A entropia sempre vence, e o destino de toda empresa — seja uma startup descolada ou um conglomerado centenário — é virar uma repartição pública russa do século XIX: burocrática, fria, cheia de carimbos inúteis e pessoas esperando o relógio bater para poderem, finalmente, ser miseráveis no conforto de suas casas, longe do Wi-Fi da firma.

A consciência humana, nesse contexto, é um erro de sistema. Um bug na arquitetura do universo que nos permite sentir tédio e angústia existencial enquanto deveríamos estar apenas processando dados para o enriquecimento alheio. Se fôssemos máquinas puras, a dissipação de calor não doeria. Mas dói. E tentamos curar essa dor com bônus de performance que mal pagam o psicólogo e férias em lugares onde tiramos fotos de pratos caros para convencer os outros de que nossa vida não é um ciclo interminável de dissipação de energia vital.

No fim do dia, somos apenas máquinas térmicas ineficientes, reclamando do preço da cerveja enquanto o universo se expande para o vazio absoluto.

Garçom, traz a conta. E não esquece que a entropia aqui já passou do limite.

コメント

コメントを残す

メールアドレスが公開されることはありません。 が付いている欄は必須項目です