Garçom, deixe a garrafa aqui. Não, não a de água, a outra. A que desce rasgando. A noite pede honestidade química, já que passamos as últimas dez horas ingerindo mentiras corporativas em salas climatizadas a dezoito graus. Olhe para a rua, para esse formigueiro humano se arrastando para o metrô. É fascinante, de um jeito mórbido. Nós gostamos de chamar isso de “carreira” ou “jornada profissional”, mas se você tiver a coragem de olhar através da lente da termodinâmica, verá o que realmente é: um vasto sistema de dissipação de energia, operando no limite da ruptura física.
A Física do Desgaste
Vamos dissecar o cadáver sem anestesia. Ilya Prigogine ganhou um Nobel explicando as estruturas dissipativas — sistemas que se mantêm organizados longe do equilíbrio termodinâmico exportando entropia para o ambiente. O escritório moderno, essa catedral de vidro e gesso acartonado na Faria Lima ou no centro do Rio, é exatamente isso. Mas não se engane: o “ambiente” para onde a empresa exporta o caos e a desordem não é a atmosfera. É você. É a sua mucosa gástrica, o seu sistema nervoso central e a sua coluna vertebral.
A empresa mantém sua estrutura cristalina, seus processos “lean” e seus lucros organizados sugando energia de baixa entropia — a sua juventude, o seu foco, a sua sanidade — e devolvendo ao mundo resíduos de alta entropia. O que chamamos de “valor agregado” é apenas o subproduto estatístico do seu colapso biológico. Para que o CNPJ permaneça ordenado e imortal, o CPF precisa se degradar. É uma lei física, não uma falha de gestão.
O Menu do Caos
E como alimentamos essa máquina térmica? Com a mais pura degradação. Você acorda e enfia goela abaixo um pão de forma que tem gosto de serragem e conservantes, corre para um transporte público que é basicamente uma estufa de suor alheio e cortisol aerossolizado. O cheiro do vagão às seis da tarde é o cheiro da termodinâmica vencendo. É o odor de milhares de baterias biológicas vazando ácido.
Que palhaçada monumental.
Você passa o dia sentado em uma cadeira que foi projetada pelo menor licitante, numa postura que faria um quiroprático chorar sangue. E aí, numa tentativa patética de mitigar o dano estrutural que você mesmo está vendendo por um salário que mal cobre o aluguel, você recorre ao consumo paliativo. Você não compra luxo; você compra manutenção de avarias. Você compra uma almofada lombar ortopédica de espuma de memória e coloca na sua cadeira gamer superfaturada, não porque você quer conforto, mas porque sua lombar está gritando que a gravidade está vencendo a batalha contra seus discos intervertebrais. É o equivalente a colocar um band-aid numa fratura exposta e chamar isso de “autocuidado”.
Digestão e Cinismo
O almoço é outra etapa desse ciclo de Carnot defeituoso. Aquela coxinha oleosa ou o prato feito de procedência duvidosa não são alimento; são combustível sujo para manter o motor girando por mais quatro horas. O seu corpo luta para processar aquela gordura hidrogenada, desviando sangue do cérebro para o estômago, resultando naquela letargia pós-almoço que você combate com litros de café requentado — um líquido preto, ácido, que corrói o esmalte dos dentes e acelera a taquicardia, mas que é essencial para fingir que você se importa com a planilha do terceiro trimestre.
A tal “auto-organização” do mercado é, na verdade, um mecanismo de seleção natural para ver quem aguenta dissipar mais estresse sem ter um infarto fulminante antes dos quarenta. O sistema adora o funcionário resiliente, porque “resiliência”, no dialeto corporativo, significa a capacidade elástica de apanhar da realidade e voltar sorrindo para pedir mais.
No fim, a entropia é implacável. O universo tende à desordem, e o trabalho é a nossa tentativa fútil, sísifa e arrogante de remar contra a maré, usando nossos próprios corpos como remos que se quebram no processo. O cansaço que você sente nos ossos agora não é apenas fadiga; é a física cobrando o pedágio. Nós não construímos nada eterno. Nós apenas aceleramos a morte térmica do universo em troca de vale-refeição e um plano de saúde com coparticipação abusiva.
Garçom, enche de novo. O motor esfriou, mas amanhã a caldeira precisa queimar cedo. Que cansaço, meu Deus. Que cansaço.
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