Entropia Terminal

O Calor da Incompetência

Garçom, por gentileza, traga outra rodada. E veja se consegue trazê-la numa temperatura inferior à do asfalto que está derretendo lá fora, ou à do meu humor, que já evaporou há pelo menos três doses. Sinceramente, observar o mundo sóbrio é uma tortura que eu não desejaria nem para o autor daquele último memorando da reitoria.

Olhem através da janela, para aquela obra pública na esquina. É uma cena de uma beleza trágica, quase uma pintura renascentista do fracasso humano. Temos ali seis homens ao redor de um buraco que parece um portal dimensional para o inferno orçamentário. Um segura uma pá como se fosse um cetro real, três olham para o nada com a profundidade filosófica de um tijolo, e os outros dois estão no celular, provavelmente discutindo a escalação do Vasco. O cidadão comum, na sua ingenuidade tocante, chama isso de “preguiça” ou “ineficiência”. Eu, munido do cinismo que só a física estatística pode proporcionar, chamo de Entropia Laboral.

A verdade é brutal e não cabe num PowerPoint motivacional: o que chamamos de “trabalho” nessas estruturas não é produção de movimento. É apenas a conversão acelerada de dinheiro de impostos em calor inútil, suor fedorento e ruído acústico. Aquele buraco na rua não é uma obra; é um ralo termodinâmico. Cada centavo que você sua para pagar ao Estado está sendo usado ali não para consertar o saneamento, mas para acelerar a morte térmica do universo enquanto alguém finge que preenche uma planilha de controle de ponto.

A Feijoada Apodrecida

A termodinâmica é uma senhora implacável, meus caros. Ela é mais cruel que um agiota e mais inevitável que a calvície. A Segunda Lei dita que, em um sistema fechado, a desordem sempre aumenta. Agora, apliquem isso à gestão pública. Imaginem um prato de feijoada esquecido sob o sol de quarenta graus do Rio de Janeiro. Ele não vai, por milagre divino, se auto-organizar em um cassoulet francês ou em uma salada fresca. Ele vai apodrecer. Vai azedar, criar fungos, atrair moscas e gerar um ecossistema de decomposição.

As organizações burocráticas são exatamente isso: feijoadas sociológicas em estado avançado de putrefação. Ilya Prigogine, que ganhou um Nobel por tentar explicar o inexplicável, chamava certos sistemas de Estruturas Dissipativas. São sistemas que precisam consumir quantidades oceânicas de energia apenas para manter a sua forma, sem realizar nenhum trabalho útil. É o retrato fiel da repartição pública. A energia (seu dinheiro, sua paciência, sua alma) entra no sistema e é consumida vorazmente não para mover a máquina para frente, mas apenas para impedir que ela desmorone sobre o próprio peso. É como aquele seu tio que vive de bicos, mas insiste em manter um carro importado dos anos 90 que bebe mais gasolina que um caça a jato e passa onze meses do ano na oficina. O gasto energético serve apenas para sustentar a ilusão de existência.

O resultado é um ruído térmico ensurdecedor. Reuniões que poderiam ser e-mails, e-mails que não deveriam existir, comitês para decidir a cor do clipe de papel. É uma vibração frenética de átomos administrativos que dissipam 99% da energia em atrito burocrático e fofoca de corredor, gerando zero deslocamento vetorial.

O Princípio da Mentira Livre

Mas por que essa estrutura não colapsa de uma vez? Por que ela persiste nessa existência zumbi? Para entender isso, precisamos sair da física e ir para a neurociência de boteco, especificamente para o Princípio da Energia Livre de Karl Friston. Basicamente, qualquer sistema biológico — ou esse monstro acéfalo que chamamos de Estado — tenta minimizar a “surpresa”. O cérebro é uma máquina de inferência que odeia ser contrariado.

Quando a realidade (o caos, a falta de verba, a incompetência) bate à porta, o sistema sente um aumento de “energia livre”, que é um termo elegante para o pânico de ser descoberto. Para minimizar essa angústia, a organização tem duas opções: agir para mudar a realidade (trabalhar de verdade) ou mudar o seu modelo interno (alucinar). Adivinhem qual elas escolhem?

A burocracia é uma alucinação controlada. Se o hospital público não tem gaze, o sistema não compra gaze; isso daria trabalho e geraria entropia no fluxo de caixa. Em vez disso, ele cria um formulário de quatorze vias que prova, matematicamente, que a gaze é um conceito burguês desnecessário e que o sangramento do paciente é apenas uma questão de percepção. Eles não estão servindo ao público; estão protegendo seus próprios modelos internos da invasão disruptiva da verdade. É como um marido que chega em casa com marca de batom no colarinho e cheiro de perfume barato, e tenta convencer a esposa, com toda a seriedade do mundo, que aquilo é uma reação alérgica rara ao glúten. A papelada, o carimbo, a portaria… são todas mentiras que o sistema conta para si mesmo para manter a homeostase parasitária.

O Fetiche do Couro

Nós somos cúmplices dessa farsa porque adoramos a estética da ordem. Vejam, por exemplo, este caderno de couro italiano feito à mão que eu comprei ontem. Custou o equivalente ao PIB de uma pequena ilha do Pacífico. Por que um homem de ciência, cínico e falido, pagaria uma fortuna em um pedaço de pele de vaca morta e papel de gramatura alta? Porque é um objeto de baixa entropia.

Ele exala uma ordem que a minha vida não tem. Eu o toco e sinto a ilusão de que, se eu escrever minhas lamentações nessas páginas macias, o caos do mundo fará sentido. É o fetiche da ferramenta. Nós vivemos nessa fantasia de que se comprarmos o software de gestão correto, se implementarmos “metodologias ágeis” ou se usarmos canetas tinteiro de mil reais, a podridão sistêmica vai desaparecer.

Bobagem. Você pode usar a caneta mais cara do mundo para assinar uma ordem de serviço idiota, e ela continuará sendo uma tragédia. Tentar modernizar a burocracia com tecnologia é como instalar um motor de Ferrari em uma carroça de burro: você não vai andar mais rápido, vai apenas espalhar estrume a uma velocidade supersônica e provavelmente explodir no processo. A infraestrutura pública brasileira é o epítome da “gambiarra termodinâmica”. É o remendo que vira monumento histórico, a exceção que vira cláusula pétrea, a inércia que se disfarça de estabilidade.

No fim das contas, esperar que um projeto estatal termine no prazo e no orçamento é tão cientificamente provável quanto esperar que o seu café esfriado se reaqueça sozinho sugando o calor do ambiente. A física proíbe o milagre. A biologia lamenta o desperdício. E nós, os arquitetos desse manicômio a céu aberto, apenas pedimos mais uma dose para esquecer que somos o carvão jogado na fornalha de um trem que não vai a lugar nenhum.

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