Sentem-se, peçam a bebida mais barata e menos honesta do cardápio e calem a boca. Vamos dissecar a carcaça purulenta do que vocês insistem em chamar de “Causa Pública”. É uma piada de mau gosto que os gestores contam para justificar o trânsito infernal das seis da tarde e o cheiro de suor rançoso que impregna os elevadores das repartições estatais e corporativas.
Nas reuniões de diretoria, onde o ar-condicionado apenas recicla o hálito de quem almoçou marmita requentada em tupperwares manchados de molho, o “bem comum” é servido como prato principal. Mas é um banquete imaginário para tolos famintos. O que chamamos de “público” ou “institucional” nada mais é do que uma tentativa patética de organizar a fome alheia. É a geometria de um estômago vazio tentando desesperadamente encontrar o ângulo certo, ou o vetor tangente ideal, para morder uma fatia do orçamento do próximo ano fiscal. É uma encenação tão mal feita quanto um filme de baixo orçamento, onde os atores esqueceram as falas e improvisam sobre “transparência” e “sinergia” enquanto conferem, por debaixo da mesa de fórmica, se o bônus de produtividade caiu na conta para pagar a parcela do carro financiado em sessenta vezes.
O Teatro da Sobrevivência
O conceito de interesse público não passa de uma miragem estatística, uma alucinação coletiva alimentada por café queimado que tem gosto de piche e sonhos de aposentadoria precoce que nunca virão. Imagine aquela coxinha gordurosa que você compra por impulso na rodoviária quando está com pressa e pouca dignidade: por fora, há uma crosta dura e dourada de “valores cívicos” e “missão organizacional”, mas o recheio é uma incógnita desfiada de interesses privados, temperada com o desespero de quem precisa bater o ponto antes que o sistema corte o dia.
Nas organizações, o que chamam de “cultura” é apenas o resíduo térmico de uma burocracia que se alimenta de tempo humano. As pessoas não colaboram por propósito; elas colaboram porque o medo de não conseguir pagar o boleto da internet é ligeiramente maior do que o ódio visceral que sentem pelo chefe. A tal da “governança” é como tentar consertar um vazamento de esgoto radioativo usando fita adesiva colorida e sorrisos falsos. Você tenta criar regras para que as pessoas não se matem por uma vaga na garagem coberta, mas o que faz é apenas aumentar a fricção, como um sapato apertado que faz calos na alma. É o desperdício de glicose em estado puro, enquanto o feriado não chega para interromper o sofrimento biológico.
Para suportar essa tortura ergonômica e espiritual, muitos executivos se escondem atrás de uma cadeira de grife com design aerodinâmico, acreditando piamente que o suporte lombar de mil dólares vai compensar o vazio existencial de passar dez horas por dia preenchendo planilhas que ninguém lerá. A cadeira é cara, promete saúde e postura, mas apenas garante que você fique sentado confortavelmente o tempo suficiente para ter sua juventude drenada pelo sistema.
A Geometria da Escassez
Esqueçam a sociologia barata de livraria de aeroporto. Se tiverem coragem de olhar para o abismo, verão que a realidade é uma estrutura de ferro e concreto onde a vontade individual é esmagada pela matemática. Uma organização não é um grupo de seres humanos; é uma variedade de Riemann, um espaço multidimensional onde cada ponto representa não uma pessoa, mas uma distribuição de probabilidade de submissão.
O que chamamos de “estratégia” nada mais é do que o ajuste de contas de um fiscal de impostos analisando sua conta bancária enquanto você tenta decidir se compra carne de segunda ou paga a conta de luz. O tensor métrico desse espaço não mede “valores” ou “ética”, ele mede a distância geométrica entre a sua conta corrente no vermelho e a sua última esperança. Quando o sistema de avaliação de desempenho diz que você está “fora do alinhamento”, ele está apenas dizendo, na linguagem fria da Geometria da Informação, que você é uma peça que range, um erro de cálculo que aumenta a entropia da máquina social sem gerar o lucro esperado pelos acionistas.
E aqui entram os autômatos decisórios, essas caixas-pretas de inferência estatística que vendem como salvação. Eles não trazem justiça; eles trazem eficiência na exclusão. Ao deixar que essas engrenagens lógicas governem a vida pública e o crédito, estamos apenas automatizando o preconceito de quem tem dinheiro contra quem tem fome. A “diversidade” que pregam nos slides de PowerPoint é um termo gourmetizado para evitar que o manifold de decisões colapse em uma singularidade de pensamento único. Sem o ruído de opiniões divergentes, o sistema se torna previsível demais e quebra, como um elástico ressecado que você estica até o limite para economizar alguns centavos.
O Abismo de Luxo
O burocrata médio olha para um gráfico de barras e sente o mesmo prazer erótico que um avarento contando moedas de cobre. Eles acham que entendem a realidade, mas a realidade é uma topologia de frustrações onde a “verdade” é apenas o caminho mais curto — a geodésica — para a manutenção do poder. A governança baseada em dados tenta transformar o grito rouco das ruas em um vetor binário silencioso e palatável.
Vejam o sujeito que usa uma caneta de metal precioso e escrita macia — cujo valor alimentaria uma família por meses — para assinar decretos de austeridade e cortes no auxílio-alimentação. O deslize da pena sobre o papel texturizado é a única coisa suave na vida de quem vai sofrer as consequências daquele traço de tinta. A caneta não é um instrumento de escrita, é um selo de distância, o símbolo fálico de quem nunca sentiu a curvatura do espaço-tempo causada pela falta de dinheiro para o ônibus.
A consciência humana, no fim das contas, é apenas um curto-circuito persistente que se recusa a aceitar que somos variáveis descartáveis em uma equação de otimização de custos mal formulada. Acreditamos em “livre-arbítrio”, mas somos apenas gado sendo conduzido por tensores de incentivos fiscais e medo paralisante de demissão. O diretor e o estagiário estão na mesma gaiola; a única diferença é que a gaiola do diretor tem acabamento em mogno e a do estagiário cheira a mofo e desesperança.
Que sono. A conta, garçom. E não me venha com métricas de satisfação ou códigos QR para avaliar o atendimento. Quero o valor bruto da minha indiferença, impresso em papel barato que eu possa amassar e jogar no chão antes de sair para vomitar essa realidade na sarjeta mais próxima.
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