Às 18 horas de sexta-feira, ouve-se um suspiro coletivo, quase tectónico, que atravessa as cidades de betão e vidro. É o som de milhões de corpos a desligarem o “modo produtivo” e a convencerem-se de que as próximas 48 horas lhes pertencem. Chamamos-lhe fim de semana. Chamamos-lhe liberdade. Mas, se formos brutalmente honestos – e a honestidade é a única virtude que o capitalismo não consegue mercantilizar totalmente –, o que chamamos de “lazer” não passa de uma paragem nas boxes. Uma manutenção preventiva e obrigatória para garantir que a máquina humana não gripa na segunda-feira seguinte.
A ideia romântica de que o tempo livre é o oposto do trabalho é a maior peça de ficção da era moderna. Não descansamos para viver; descansamos para trabalhar. O vosso sono não é um refúgio onírico, é uma recarga de bateria biológica. O jantar fora, a maratona de séries no streaming, a cerveja gelada no bar da esquina; nada disso é uma verdadeira rutura com o sistema. São, antes, os lubrificantes necessários para que a engrenagem continue a rodar sem chiar demasiado.
Theodor Adorno já nos avisava, com o seu pessimismo germânico habitual, que o lazer é a continuação do trabalho por outros meios. Mas a realidade atual é ainda mais perversa. Hoje, o próprio lazer exige esforço. Existe uma pressão silenciosa para que o nosso tempo livre seja “produtivo”. Não basta descansar; é preciso ter hobbies, é preciso viajar para lugares “instagramáveis”, é preciso consumir experiências que validem a nossa existência social. O ócio contemplativo, aquele “dolce far niente” que não gera dados nem consome produtos, tornou-se um pecado capital secular. Se não estás a produzir valor, tens de estar a consumir valor. Ficar simplesmente a olhar para o teto é um ato de rebeldia que poucos podem (ou conseguem) suportar.
Esta lógica transforma o lar não num santuário, mas numa oficina de reparação da força de trabalho. Lavar a roupa, limpar a casa, preparar as refeições da semana, e até mesmo a gestão emocional das relações familiares — tudo isso é trabalho não remunerado, disfarçado de vida doméstica, essencial para que o trabalhador se apresente, de banho tomado e camisa engomada, pronto para vender as suas horas novamente. É a logística da sobrevivência, travestida de quotidiano.
E depois, há a melancolia específica dos domingos à noite. Aquele aperto no peito quando a música do genérico do telejornal toca, anunciando que a trégua acabou. Essa angústia não é apenas o fim da diversão; é a consciência subconsciente de que a nossa “alforria” temporária era uma ilusão. O tempo nunca foi nosso. Foi-nos apenas emprestado para que pudéssemos recompor os tendões e os neurónios, apenas o suficiente para aguentar mais cinco dias de desgaste.
Portanto, da próxima vez que brindarem à sexta-feira, façam-no com a ironia de quem conhece as regras do jogo. Aproveitem o sol, o vinho e o riso, mas não se enganem: este “tempo livre” já foi contabilizado nas folhas de cálculo de alguém. Vocês não estão a fugir do sistema; estão apenas a recarregar as energias para o continuar a alimentar. E a segunda-feira, implacável e pontual como um cobrador de impostos, estará sempre à espera.
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