A Ilusão do Valor Público
Bebam logo. Parem de fingir que estão lendo relatórios de sustentabilidade e aceitem a verdade nua e crua: as organizações modernas não são “ecossistemas de valor”. Essa é a mentira reconfortante que contamos para não admitir que o nosso trabalho diário tem a mesma relevância biológica que uma barata tentando atravessar um pátio de cimento quente ao meio-dia. O que chamamos de “valor público” é apenas um espasmo local de baixa entropia no meio de um furacão de desordem. É uma estrutura dissipativa que só se mantém de pé porque alguém, em algum lugar, está sendo explorado o suficiente para injetar energia num sistema que, no final das contas, só produz calor inútil e frustração crônica.
Vocês adoram citar Ilya Prigogine para parecerem inteligentes no happy hour, mas a realidade física de um escritório é muito mais suja: uma empresa é como um cano entupido em um apartamento alugado no centro velho. Você gasta uma fortuna com encanadores chamados “consultores”, o cheiro de esgoto burocrático continua lá, e a única coisa que flui com velocidade laminar é o seu orçamento indo para o ralo. A tal “missão institucional” é o equivalente organizacional a uma coxinha de rodoviária: por fora, a casca dourada do marketing promete nutrição; por dentro, é uma massa cinzenta e duvidosa que vai te dar uma azia existencial às três da manhã.
A Putrefação do Propósito
Essa palhaçada de “impacto social” é a gourmetização do óbvio, uma tentativa desesperada de dar sabor a um prato estragado. Antigamente, uma empresa vendia um parafuso porque alguém precisava prender uma tábua. Honestidade brutal. Hoje, você não vende metal; você vende o “propósito de conectar mundos através da fixação sinérgica”. Isso não é evolução corporativa; é inflação de ego. Cada vez que um CEO abre a boca para falar de “sustentabilidade do negócio”, um analista júnior ganha uma úlcera nova. É um sistema puramente exotérmico: ele queima gente viva — a biomassa do RH — para manter o ar-condicionado da diretoria gelado o suficiente para eles não suarem enquanto demitem.
Matematicamente, se você pegar o tempo gasto em reuniões de “brainstorming” e converter em energia elétrica, daria para iluminar uma cidade pequena por um ano. Mas, em vez disso, essa energia é dissipada na forma de slides de PowerPoint que ninguém olha e termos em faria limer que só servem para esconder que ninguém sabe, de fato, o que está fazendo. É o ruído branco do fracasso. O valor público morre no exato momento em que alguém decide que ele precisa ser “gerenciado” por um comitê. Gerenciar o bem comum é como tentar guardar água em uma peneira de ouro: você gasta o ouro na ferramenta, mas a água vai embora do mesmo jeito, deixando apenas o metal frio e inútil nas suas mãos trêmulas de cafeína barata.
O Ruído das Ferramentas Inúteis
Vejam esses idiotas nos coworkings com grama sintética. Eles se sentam em cadeiras que custam o preço de um rim, usando um fone de ouvido com cancelamento de ruído que promete o silêncio do vácuo estelar. O pobre coitado acredita que, ao bloquear o som do ambiente, ele vai conseguir focar. Tolice. O barulho ensurdecedor não vem de fora; vem da voz interna gritando que a planilha de Excel dele é uma piada cósmica. Ele está pagando uma fortuna não para ouvir música, mas para tentar abafar o som do próprio vazio produtivo.
E o fetiche continua. Eles compram um caderno de capa dura com papel de gramatura absurda para anotar ideias que poderiam ser escritas em um guardanapo sujo de mostarda — e seriam igualmente descartáveis. É a vitória da ferramenta sobre a função. A entropia aqui é estética: o sistema está tão podre por dentro que ele precisa brilhar por fora com acessórios caros para que você não sinta o cheiro da decomposição moral. O trabalho virou um regime turbulento de e-mails com quarenta pessoas em cópia oculta. É uma defesa imunológica da burocracia: se todos são responsáveis, ninguém é culpado quando a estrutura colapsa.
O Ponto de Ebulição do Nada
Chega um momento em que a organização atinge o estado estacionário da estupidez absoluta. É quando a produção de “documentos de diretrizes” supera a produção de qualquer coisa que um ser humano possa realmente usar ou comer. É aqui que a termodinâmica encontra a piada de mau gosto. Estamos todos correndo em rodas de hamster banhadas a platina, acreditando que o suor da nossa testa vai girar as engrenagens do progresso civilizatório, quando, na verdade, só estamos acelerando o desgaste das nossas próprias articulações e a morte térmica do universo.
Ninguém se importa. O acionista quer o dividendo, o político quer a foto no jornal, e você só quer que chegue sexta-feira para poder encher a cara e esquecer que passou quarenta horas da sua semana discutindo a cor de um botão em um site que ninguém acessa. A entropia sempre vence. A ordem que tentamos impor ao mundo através dessas organizações é uma ilusão cara, sustentada por remédios tarja preta e café queimado. O valor público evaporou faz tempo, dissipado no calor das discussões inúteis sobre “metodologias ágeis” aplicadas a processos que deveriam ter sido extintos na década de 90.
O que resta é o silêncio desconfortável de um escritório open space onde todos fingem estar ocupados enquanto esperam o fim. Dá vontade de ir embora e nunca mais voltar, mas o bar ainda não abriu e eu esqueci meu carregador na mesa. Que se dane. A próxima rodada de desespero é por conta da casa.