Na última vez que conversamos sobre a morte da lealdade laboral, fui demasiado brando. Aquilo foi apenas o prefácio de uma decomposição térmica muito mais grotesca que ocorre diariamente sob as luzes fluorescentes dos escritórios. Sempre que ouço um CEO balbuciar sobre "propósito", "visão" ou "cultura de dono", sinto a mesma náusea física de quem observa um pote de maionese esquecido sob o sol do meio-dia, separando-se lentamente em óleo rançoso e coágulos brancos. O que eles chamam de gestão moderna não passa de uma tentativa desesperada de renomear a putrefação.
Uma corporação não é uma família, tampouco uma comunidade. Rigorosamente falando, é uma estrutura dissipativa longe do equilíbrio. Imagine um redemoinho num rio de esgoto: ele mantém a sua forma não porque tem uma "missão", mas porque consome energia furiosamente e exporta o caos para o ambiente ao redor. Achar que existe uma "alma" no CNPJ é a mesma alucinação de um viciado em caça-níqueis que acredita que a máquina pisca luzes porque gosta dele. É apenas física, e da pior espécie.
Olhe para o seu departamento de marketing. Aquele amontoado de pessoas não é um celeiro de "talentos criativos". É um tubo de escape. Eles queimam capital — o combustível do sistema — e em troca geram ruído informacional, apenas para adiar a inevitável morte térmica da organização. O lucro, que os acionistas idolatram, nada mais é do que o resíduo termodinâmico de um sistema que conseguiu, temporariamente, empurrar a sua própria desordem para os fornecedores ou para a saúde mental dos estagiários. Quando uma startup explode em crescimento, é como aumentar a chama de um fogão a gás: a comida queima, a panela estraga, mas por alguns minutos, há muito calor e movimento. É o sacrifício do sistema nervoso humano no altar da entropia.
E é fascinante observar os rituais desse culto ao desperdício. Observe a mesa do seu diretor. Veja aquela caneta-tinteiro de luxo absurdamente cara que ele usa apenas para assinar autorizações de férias. Por que alguém gastaria o equivalente a três salários mínimos num tubo de resina que vaza tinta? Não é apreço pela escrita. É um sinalizador biológico de excesso, um grito desesperado de um organismo que quer provar ao universo que ainda tem energia sobrando para queimar em futilidades estéticas, mesmo enquanto o núcleo do negócio apodrece. É o totem da incompetência, um objeto amaldiçoado que exala vaidade e ineficiência.
Mas o verdadeiro horror começa quando a organização "amadurece". A evolução corporativa segue o sádico Princípio da Produção Mínima de Entropia. Para evitar o colapso, o sistema tenta se cristalizar. O que chamam de "eficiência operacional" é, na verdade, o congelamento molecular da criatividade. A burocracia é o estado sólido do medo. Quando você passa a tarde de uma terça-feira preenchendo planilhas que ninguém vai ler, ou formatando um slide para que o tom de azul esteja no *guideline* da marca, você não está trabalhando. Você está agindo como uma partícula vibrando no lugar, tentando manter o gelo intacto, impedindo que o calor da vida derreta as estruturas de controle.
Nesse estágio de *rigor mortis*, a inovação torna-se uma piada de mau gosto, como maquiar um cadáver para o velório. As grandes empresas compram startups não porque querem a tecnologia, mas numa tentativa vampírica de fazer uma transfusão de sangue jovem num corpo esclerosado. Mas o resultado é sempre o mesmo: o sangue novo entra, é digerido pelos processos de *compliance*, e vira a mesma gosma cinza e inerte que preenche os corredores da matriz.
Estamos caminhando para um futuro onde a gestão será purificada de toda humanidade. O seu chefe, com todas as suas falhas e neuroses, será substituído por algoritmos de ajuste termodinâmico. O "líder" perfeito do futuro não terá empatia, nem fará discursos motivacionais; ele será uma equação fria que minimiza o atrito e maximiza o fluxo, operando no limite físico de Landauer. E o ser humano? Nós somos apenas o ruído térmico, a fricção indesejada nas engrenagens. O seu plano de carreira, diante da vastidão indiferente do caos cósmico, tem menos valor que o prazo de validade rabiscado numa marmita azeda na geladeira da copa.
Pare de se preocupar com a avaliação de desempenho. O universo não dá a mínima para as suas metas trimestrais. Que bebida horrível. Já vai fechar?
コメントを残す