Termodinâmica Fútil

Dizem por aí, geralmente em apresentações de PowerPoint com fontes sem serifa e cores pastéis, que as empresas são “organismos vivos” ou, na pior das hipóteses alucinatórias do RH, uma “grande família”. Que atrevimento. Se você tiver a decência intelectual de remover a catarata do entusiasmo corporativo e observar uma sala de reuniões com o cinismo clínico de um patologista, verá o que realmente somos: estruturas dissipativas. Uma organização nada mais é do que um maquinário grotesco onde a gerência — esse parasita socialmente aceito — consome o tempo biológico do hospedeiro, vulgo funcionário, e expele dióxido de carbono e atas de reunião absolutamente irrelevantes.

A Ilusão da Ordem

Ilya Prigogine ganhou um Nobel explicando como a ordem pode emergir do caos, mas ele certamente nunca teve que justificar um orçamento de marketing numa terça-feira chuvosa. As empresas são sistemas longe do equilíbrio que exigem um fluxo energético colossa para manter sua baixa entropia interna. Mas não se iluda achando que essa energia é “eletricidade” ou “capital”. Não. A energia que sustenta a ordem, que mantém as planilhas do Excel alinhadas e os fluxogramas coloridos, é a vitalidade humana triturada em pó fino.

A tal “cultura organizacional” é a manutenção técnica dessa farsa. É como tentar desentupir um esgoto sanitário despejando garrafas de champanhe safra especial: um desperdício estético para resolver um problema estruturalmente podre. O funcionário médio queima calorias comendo uma marmita fria em frente ao computador, sob a luz flúor que drena a alma, apenas para evitar que a empresa colapse em seu estado natural: o caos absoluto. O resultado desse esforço hercúleo? Calor. Apenas calor. Geramos relatórios que ninguém lê, e-mails que poderiam ser silêncio e “dinâmicas de grupo” que servem apenas para aumentar a temperatura da sala e a vontade coletiva de morrer. É um motor térmico de eficiência negativa.

O Medo Matemático

Se descermos do macroscópico para o neurológico, a tragédia se torna ainda mais patética. Segundo o Princípio da Energia Livre de Karl Friston, sistemas biológicos agem para minimizar a “surpresa” ou o erro de predição. No mundo real, longe dos laboratórios assépticos, isso significa que ninguém trabalha para criar valor; trabalha-se para evitar o pânico. O comportamento corporativo é regido pelo pavor de que o modelo interno de mundo do chefe colida com a realidade.

Aquele gestor que microgerencia cada respiração sua não está “liderando”; ele está sofrendo de um colapso bayesiano, tentando desesperadamente reduzir a incerteza de que é inútil. E nós, cúmplices dessa covardia matemática, nos sentamos em uma cadeira ergonômica Herman Miller, cujo preço obsceno promete proteger nossa lombar enquanto aguardamos o inevitável, mas que na verdade serve apenas como um trono acolchoado para a nossa paralisia existencial. Gastamos fortunas em mobiliário de design para dar conforto a corpos que estão rígidos de medo. A “inovação” que tanto pregam é apenas um erro de arredondamento, uma falha no sistema de supressão de riscos que, por puro acidente, gerou lucro. É como um marido infiel inventando uma desculpa complexa para o atraso: a criatividade nasce do terror de ser descoberto, não da inspiração.

Rituais de Decadência

O que chamam de “valor agregado” é, na maioria das vezes, apenas a gourmetização do óbvio. É pegar a realidade crua, empaná-la em jargões em inglês e vendê-la como uma experiência transcendente. Somos como um hambúrguer de 90 reais servido numa tábua de madeira rústica: muita encenação para disfarçar o fato de que é apenas carne moída e gordura saturada. A sofisticação é o refúgio dos medíocres.

E para validar essa ópera bufa, recorremos aos fetiches do consumo. Sacamos do bolso uma caneta-tinteiro Montblanc, um instrumento belíssimo e anacrônico, para assinar contratos que apenas formalizam a nossa própria exploração. A tinta flui suavemente, não para registrar a história ou garantir o futuro, mas para criar um registro caligráfico da decadência do nosso saldo bancário. É um ritual de sacrifício onde o sangue foi substituído por tinta preta de alta viscosidade. Que bobagem.

No fim, a Segunda Lei da Termodinâmica é a única CEO que importa. A entropia sempre vence. Todo o esforço, todas as reuniões de alinhamento, todos os workshops de mindfulness corporativo são apenas uma tentativa fútil e caríssima de adiar a morte térmica do sistema. O universo tende à desordem e ao silêncio, e a sua empresa, com toda a sua missão e valores impressos na parede da recepção, é apenas um breve ruído estatístico antes do esquecimento. Garçom, traz a conta. O show acabou.

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